13/10/1977 Trinta anos depois (Onde você estava naquela noite?)
Alguns dizem que brasileiro não tem memória, mas corinthiano tem, por isso recordarei o que ocorreu naquela noite de 13/10/1977.
Eu diria que esse relato é histórico, pois se destina a provar mais que a fidelidade de uma torcida, mas o valor e a perseverança de um povo na quase sublime devoção pelo esporte de sua terra, digo isso porque o Corinthians campeão é povo campeão.
Lembro que estava na primeira série primaria do colégio Dom Bosco, no bairro da Mooca, porém aquele dia não iria à escola, pois era um dia especial, minha família tinha um compromisso da mais alta importância, no começo da tarde saímos (eu, minha mãe e minha irmã) do velho IAPEI onde morávamos e fomos em direção á igreja dos enforcados no bairro da liberdade, lembro-me da vela que acendemos na ocasião e dos galhos de arruda que minha mãe pediu para não perder até que o jogo tivesse terminado.
Lá pelas seis horas da tarde, meus primos passaram em casa para levar-nos ao estádio do Morumbi num velho Opala, lembro-me, que no trajeto havia um mar de bandeiras alvinegras e fogos de artifício sendo soltos pelos carros e ônibus que se dirigiam ao local da decisão.
Chegando ao estádio, saboreando um suculento “Hot-Dog”, havia duas preocupações na minha cabeça: A primeira era não perder em hipótese alguma aquele galho de arruda, pois daquilo dependia a vitória daquela noite e a segunda eram os fogos de artifício, que naquela época eram soltos pelos próprios torcedores e que me havia amedrontado tanto no domingo anterior, quando havia sido quebrado o recorde de público do estádio.
Recordo-me bem quando os onze guerreiros de camisa listrada entraram em campo a quantidade de fogos de artifício soltos pelos presentes era tanta que gerava em mim uma mistura de pavor e fascínio diante de um espetáculo tão bonito, lembro-me também, que a quantidade fumaça impedia-nos de observar o goleiro Carlos da Ponte Preta até aproximadamente os 25 minutos do primeiro tempo.
Nunca vou me esquecer que aqueles onze heróis vestidos com a mística camisa listrada lutavam como leões diante de um adversário tecnicamente superior, pois, naquela peleja, houve uma sucessão de ataques e tentativas do time alvinegro, porém a sorte continuava a proteger o arqueiro adversário.
Porém aos 36 minutos da segunda etapa, numa jogada de aproximadamente 22 segundos, talvez cada um deles representando cada ano de agonia e sofrimento dos anos de fila, culminou com o chute certeiro de Basílio (o Libertador), aquele instante parece que tudo parou e passou a acontecer numa rotação diferente do normal e quando me vi estávamos (eu, meu pai, minha irmã e minha mãe) nos abraçando e chorando, eis que, naquele mesmo instante, outras pessoas que mal conhecíamos vinham nos abraçar e chorar, seres humanos de todas as raças e classes sociais, em meio à catarse coletiva de noventa mil pessoas no estádio e milhões pelo país, JAMAIS VOU ESQUECER AQUELE MOMENTO.
Dali em diante cada minuto parecia uma eternidade, seja pelo barulho ensurdecedor que os milhares de apitos faziam enquanto a Ponte Preta estava com a bola, seja pela agonia de ver meus pais sofrendo tanto naquele instante, seja pelas minhas mãos suadas que não podiam soltar aquele galho de arruda.Porém quando o juiz decretou o fim daquele jogo às horas que se sucederam foram de puro êxtase coletivo com a torcida invadindo o gramado, mesmo com o forte aparato policial, com o povo tomando conta das ruas da cidade de São Paulo provocando até porque não dizer, uma subversão da ordem, durante anos de chumbo da década de 1970.
Chegando em casa, eu e meus familiares fomos recepcionados por amigos e outros familiares, lembro especialmente do meu avô, um imigrante espanhol e operário da indústria Matarazzo e corintiano “doente”, com uma faixa na cabeça escrito “CAMPEON” e o saudoso e lendário corintiano “Pica Pau”, meu tio por sinal, chorando copiosamente, a partir disso a festa varou madrugada adentro no prédio 15 da rua Professor Demóstenes, provocando muita reclamação dos vizinhos nos dias que se sucederam.
Naquela noite, quando fui repousar coloquei a mão no bolso, pegando o galho de arruda e feliz comigo mesmo, pensei, por um momento, que tinha dado minha contribuição para aquela vitória, mal sabia aquele garotinho que havia sido observador de uma das páginas mais bonitas da historia de um povo e que aquela noite jamais terminaria para um homem que a partir dali moldava seus valores éticos, morais e políticos.